Minhas referências  

                                     

“Essa é exatamente a mensagem que os contos de fadas transmitem à criança de forma múltipla: que uma luta contra dificuldades graves na vida é inevitável, é parte intrínseca da existência humana – mas que se a pessoa não se intimida, mas se defronta de modo firme com as opressões inesperadas e muitas vezes injustas, ela dominará todos os obstáculos e, ao fim, emergirá vitoriosa.” Bruno Bettelheim 

“Quando não conseguimos mais mudar uma situação, temos o desafio de mudar a nós mesmos.” (Viktor Frankl)

 

Fui apresentada à essas frases quando pesquisei a respeito dos contos de fadas para um trabalho da minha pós-graduação. Desenvolvi um projeto de cenografia e figurino para um conto que escrevi em um curso de criatividade prática, onde em um dos exercícios propostos, escrevi minha biografia em forma de conto de fada. Basicamente, ele fala da história de uma menina que aprendeu que os sentimentos viravam bolinhas de gude, e que eles deveriam ser guardados no vestido e não podiam ser mostrados para ninguém. E de tanto guardar, seu vestido não aguentou e rasgou, soltando bolinhas para todos os lados. E aí, quem estava ao seu redor explicou: elas devem ser plantadas, para germinar e florir o seu jardim!

A partir de então, carrego comigo essas duas frases, como referências importantes, e acredito que é possível resumi-las em uma palavra: resiliência! Pra mim, é o seguir caminhando, apesar dos obstáculos - que fazem parte do processo da vida... É cumprir o seu papel na missão do viver. É viver a sua essência, sua conexão com a natureza divina.

Esse trabalho foi há alguns anos… e ficou guardado.

Agora, começando a escrever sobre meu trabalho, resgatei ele e o que ele representa, pois conectou com o que tenho buscado.

Tenho observado a resiliência se expressando nas frestas, que eu chamo de frestas da alma - das pessoas, da natureza, dos objetos e dos lugares.

Frestas são detalhes, como cicatrizes, que mostram relances de cenas da vida, por onde escapam: o tempo, os sentimentos, a vida.

 A gente consegue ver a parte exposta... mas o que está dentro, fica escondido! Sob camadas, em sobreposições, nas marcas. Estas carregam histórias, protegem segredos, guardam emoções e preservam o passado… o caminhar da vida de alguém.

 Sempre gostei de observar coisas antigas. Na maioria das vezes, sabemos nada ou pouco sobre elas, mas só de imaginar que carregam uma história, já me trazia curiosidade. Me pego aos detalhes, que muitas vezes passam desapercebidos… o lascado de uma louça antiga, uma parede descascada, o amassado de uma fotografia, a dedicatória em um livro, pedaços de conversas dos adultos ouvidas na infância… as passamanarias das roupas dos filmes de época, uma mancha no enxoval antigo guardado como preciosidade, o tom do ouro velho da caixinha de joias da avó.

Com isso vem junto as lembranças que passam correndo como relâmpago, e quando tentamos nos "esforçar" para lembrar mais um pouquinho, não conseguimos: parece que a memória escapa, não obedece. Tudo em tom sépia.

Há tempos coleciono fotos de "lost places". Lugares esquecidos que apesar do abandono, resistiram ao tempo. Alguns continuam como foram deixados. Em outros, é possível ver a natureza agindo da forma dela: resiliente, sábia, calma e que caminha no seu tempo.

Tem sido minha inspiração contemplar o vazio desses espaços, que podem parecer solitários quando se vê com o olhar caótico da atualidade, mas que está sempre preenchida de algo.